Quase quatro anos atrás, um publicitário me perguntou: afinal, quem ganha dinheiro com a Internet? A resposta que eu dei era comprida e envolvia provedores de acesso, fabricantes de hardware, empresas de telecomunicações e alguma coisinha mais.
Se ele estivesse me fazendo a mesma pergunta hoje, a resposta seria muito diferente e muito mais extensa. Na verdade, naquela época o dinheiro aparecia bem modestamente - um pouquinho aqui, um pouquinho ali, mas nada grandioso.
Mas o que dizer quando vemos uma Mirabilis (aquela do ICQ) sendo comprada pela America Online por 287 milhões de dólares cash? Ou, num negócio semelhante, a Vocaltec vendendo 21% de seu capital à poderosa Deutsche Telekom - que, de quebra, ainda comprou 30 milhões de dólares em produtos da própria Vocaltec para telefonia IP?
Mesmo correndo o risco de dizerem que eu sou “suspeito”, não poderia deixar de mencionar a Mandic, que começou com um micro num quarto da minha casa e hoje é uma empresa que vale algumas dezenas de milhões de dólares, com parceiros internacionais. Aí você pode começar a ver onde está o dinheiro da Internet. Mas isso é só a ponta do Iceberg.
Infovias
Na verdade, quem faz hoje a pergunta “onde está o dinheiro” é porque ainda não entendeu a Internet. Pensava-se que ela significava os sites, banners, informação paga, provedores de acesso, e que se havia dinheiro ele tinha de sair dali
Engano. A Internet é uma indústria, a mais nova indústria da comunicação, e ao mesmo tempo é uma mídia. É também uma rede. É um repositório de dados. Fica mais fácil dizer o que ela não é. Por causa dessas características, ela jamais poderia ser explorada como se faz (ou fazia) na mineração de ouro, em que sabe-se exatamente onde está a grande riqueza - basta garimpar e cavar, cavar, cavar.
Na Internet, pode-se dizer que só encontra ouro rápido quem investe pesado em pornografia. O resto é 10% de inspiração e 90% de transpiração, como na maioria dos negócios deste planeta. Portanto, pode-se também dizer em primeiro lugar que o sucesso na Internet não tem forma definida e muito menos lugar certo. E não vem de graça não - custa muito trabalho.
Assim, três anos atrás muita gente achava que abrir uma empresa para prover acesso era inaugurar uma mina de ouro. Errado. Mas por que parecia certo? Por que parecia ter forma definida? Provavelmente por causa da avidez de conexão à Internet que pairava sobre a sociedade brasileira.
Imaginava-se que os clientes apareceriam aos milhões. Apareceram aos milhares. Muito provedor “quebrou a cara” e perdeu dinheiro, mas muitos ficaram no negócio e não podem se queixar. E é evidente que aí havia dinheiro.
Outra ilusão apareceu entre os profissionais de comunicação: a de que fazer páginas em HTML podia ser um negócio. Não era - primeiro porque o HTML passou a ser um simples “save as” de uma porção de aplicações, e segundo porque a concorrência foi tal que o mercado se superlotou de profissionais especialistas na elaboração de páginas, e portanto o preço das páginas e dos sites em geral baixou.
Onde estava o dinheiro? Quem podia ganhar dinheiro nesse metier? Provavelmente apenas os designers, que cuidavam das ilustrações (uma coisa que não pode ser automatizada), e as agências de propaganda, que podem conseguir boa remuneração pelos sites.
Mas acho que a melhor analogia que se pode fazer com a Internet é a rede de estradas de qualquer país. É evidente que a rede de estradas tem um valor, porque é feita de terras, serviços de engenharia e de terraplenagem, asfalto, sinalização. Mas se ninguém passar por ela, que valor tem? A resposta é nenhum.
Se, por outro lado, essas estradas ligarem muitas comunidades, o comércio entre elas irá se fortalecer de milhões de maneiras: passará o caminhão do leite, o das verduras, o ônibus intermunicipal; no acostamento serão fincados os postes para levar eletricidade a todas as propriedades na beira da pista e para sustentar cabos telefônicos.
Não é preciso ser muito esperto para perceber quantas empresas se formaram e poderão estar se formando para utilizar a estrada como meio de concretizar negócios.
Portanto, a fortuna que está na Internet é formada por milhões e milhões de oportunidades de negócios, que vão desde o provimento de acesso e fornecimento de informações até o desenvolvimento de aplicações antes impensáveis, ou cuja utilidade era desprezível, como por exemplo a telefonia ou a transmissão de imagens de TV. Três anos atrás, essas duas não passavam de brincadeira de estudantes de engenharia elétrica. Agora, a brincadeira acabou e as companhias de TV a cabo não querem deixar passar a possibilidade de colocarem acesso à Internet nos seus cabos e vice-versa.
Paul Allen, o sócio-fundador da Microsoft que mora em São Francisco, gastou 2,78 bilhões de dólares de sua fortuna comprando uma boa participação na Marcus Cable, que é a maior empresa privada de TV a cabo nos EUA. Por quê? Porque ele acredita que o sistema de cabos para TV é perfeito para interconectar o mundo, como admitiu na entrevista coletiva que deu ao comprar sua parte na companhia.
Do mesmo modo, a telefonia IP (via Internet) está na programação de investimentos de todas as telefônicas do mundo, principalmente depois que a Deutsche Telekom decidiu apostar nela e abriu experiências-piloto nos EUA, Japão, Canadá e Alemanha.
Onde está o dinheiro?
Numa era em que se fala de globalização em todas as esquinas, a Internet se transformou na estrada que permite a uma loja de Nilópolis vender um CD a um consumidor na Bélgica sem abrir uma filial em Bruxelas. Que finalmente permite ao embaixador brasileiro em Pequim ler notícias do Correio Braziliense ou do Estadão sem esperar pelos vôos que vêm do Brasil com escalas e conexões. Que faz uma carta ir de São Paulo a Chicago em quatro segundos e não em dez dias.
Esses três exemplos de utilidade da Web estão fazendo fortunas. Não sei se alguma loja de brasileira está vendendo CDs a estrangeiros, mas foi vendendo livros que a Amazon Books tornou-se uma potência na rede, ameaçando gigantes do mundo real como a poderosa rede americana de livrarias Barnes & Noble.
Concordo com Nicholas Negroponte, para quem no futuro as livrarias podem servir para uma porção de coisas, como tomar café e encontrar os amigos, mas as pessoas vão preferir comprar livros pela Internet.
Na verdade, algumas operações estão migrando totalmente para a Internet, como aconteceu com a cadeia de lojas de informática Egghead Software. Para quem não sabe, a partir de abril a franquia fechou! E está operando exclusivamente via Internet. Por quê? Porque o consumidor de artigos de informática nos EUA está ligado à Internet e utiliza a rede para resolver uma porção de problemas, inclusive compra de itens para o seu micro - de papel a memórias.
Pode parecer absurdo, mas os bancos estão indo atrás da mesmíssima idéia. Afinal que diferença existe entre uma loja da Egghead e uma agência do Bradesco?
Ah, você vai responder “Mandic, você está maluco, as diferenças são gigantescas”. Eu respondo o seguinte: as duas são imóveis nos quais a companhia tem de pagar aluguel, água, luz, impostos, manutenção, limpeza, sem falar de sistemas de segurança e outros detalhes que não vêm ao caso. Quanto custa isso num ano de operação? Não responda agora.
Hoje, o Bradesco está testando em Itu-SP sua moeda eletrônica, que funciona assim: os clientes que têm micro recebem um smart card e um drive de Smart Card para gravar informações nesse cartão. Conectam-se ao site do banco na Internet e ali podem fazer uma porção de operações, inclusive obter ”moeda eletrônica”. Em outras palavras, fazem download de dinheiro de sua conta bancária diretamente para o cartão, e com ele pagam táxi, cinema, restaurante, lavanderia, papelaria – qualquer coisa.
Mais uma pergunta: esse cliente ainda precisa de agência bancária? Terceira pergunta: quanto vale um desses sistemas de home banking que liquida agências e transforma o dinheiro em bits? Vale muito. E aí está novamente o dinheiro da Internet.
Num país com abundância de capitais, como os EUA, um sistema com uma utilidade dessas atrai dinheiro. Os investidores estão ávidos por empresas inovadoras, capazes de gerar dinheiro rápido, como a Yahoo, que começou há três anos valendo poucos milhares de dólares e hoje tem um valor de mercado de US$ 5,4 bilhões (fantástico), com um detalhe: fatura anualmente somente 70 milhoes de dólares.
Então, por mais que eu pareça redundante, vale a pena repetir que não se está ganhando dinheiro exatamente com a Internet ou na Internet, mas principalmente pela Internet. E para chegar a ele muitas vezes só é preciso investir inteligência e muito trabalho.
Autor/fonte: Aleksandar Mandic
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